Ricardo
Noite escura e calada.
Não corre vento, não há estrelas no céu e uma leve sombra de nuvem cobre a Lua.
Ricardo nos seus 30 e poucos anos, gabardina a tapar os ombros, o peso do mundo nas costas, marcha já trôpego dos licores a Rua do Carmo em direcção à Praça do Poeta Zarolho.
O som choco da sola gasta dos sapatos a chicotear a calçada ecoa nas paredes como que o trotar de um cavalo no asfalto.
O ressonar de uns indigentes e pouco mais perturba o silêncio daquela noite de domingo.
Vira para a Garret, caminha em perfeito desequilíbrio e ao passar a basílica um sujeito aborda-o. Pede-lhe um cigarro. Ricardo, diz que o que tem é o único. O sujeito pede-lhe trocos, Ricardo, leva a mão ao bolço à procura de moedas, sem querer deixa cair o maço de tabaco. O sujeito irritado por Ricardo não ter dado um cigarro de boa fé, solta um punho na sua direcção. Depois outro, e logo de seguida um segundo sujeito que Ricardo não vira derruba-o. Um terceiro começa a pontapear-lhe as costelas. Deixam-no caído no chão, levam a carteira. O cigarro não era só um, eram 12. O sujeito não era um, eram 4.
Ricardo acende o único cigarro que tinha em sua posse e pensa: " Nunca tive jeito para Matemática!"